Celebrar João, o Batista

Borges, o maior escritor argentino de todos os tempos, escreveu um brilhante artigo chamado “Kafka y sus precursores”, onde ele reconhece que os autores e livros que são possíveis precursores de Franz Kafka, apesar de parecerem-se a Kafka, não se parecem entre si. “Se Kafka não tivesse escrito”, adverte Borges, não seria possível perceber (ou sequer existiriam) essas semelhanças que os precursores possuem com o escritor praguense. Isso ocorre, conclui, porque “o fato é que cada escritor cria a seus precursores. Sua obra modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro”.

Fazendo uma analogia com o Messias e Seus precursores, podemos dizer que Adão, Abraão, Moisés, Elias, os sumo sacerdotes mencionados por Alma (Alma 13) e todos os demais personagens da história humana que são considerados precursores do Cristo, o são porque foram criados por Ele, não o contrário. Sem o Messias, não haveria nada de especial em nenhum desses personagens. Não foram os precursores que moldaram o futuro Ungido do Senhor, mas foi Ele quem os criou, moldou e determinou sua história.

Tendo isso em vista, o que podemos dizer daquele que foi o precursor mais próximo do Messias?

No fim de junho deveríamos celebrar as Festas Zacarianas, caso o esposo de Isabel chamasse seu filho milagrosamente concebido por seu próprio nome. Porém, o fiel sacerdote judeu deu ouvidos ao Senhor Deus, e chamou seu filho por João.

Em sua homenagem celebramos as grandes Festas Juninas. O nascimento milagroso de João, celebrado perpetuamente, é um prenúncio do nascimento do Messias, e as celebrações de seus nascimentos (realizadas nos solstícios de inverno e de verão) também.

Se os cristãos que possuem unicamente a Bíblia celebram o nascimento, a vida e o ministério de João, quanto mais nós, santos dos últimos dias, devemos reconhecer a grandiosidade desse Santo Profeta!

Não tenho dúvidas da grandiosidade do último profeta pré-messiânico, aquele que foi designado antes de que o mundo existisse, para preparar o mundo para a iminente Vinda do Messias, cuja vida deve ser de exemplo para nós, já não precursores, senão discípulos, que nos preparamos e ao mundo, para uma Segunda Vinda, não menos iminente do Messias.

O mesmo anjo que anunciou a Maria a conceição do Salvador, anunciou a Zacarias, no local mais santo do Templo, a concepção de João.

O profeta Joseph Smith ensinou que esse era o anjo Gabriel, e que em sua vida mortal ele havia sido o profeta Noé, que presidiu a salvação do gênero humano do dilúvio. Gabriel prometeu a Zacarias que "terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento" (Lucas 1:14). Profecia cumprida fielmente até os dias de hoje.

O mensageiro celestial também profetizou o seguinte sobre João: "será grande diante do Senhor, (...) e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe; E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus; E irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, e os rebeldes, à prudência dos justos; para habilitar ao Senhor um povo preparado." (Lucas 1:15-17)

Lucas resgata o primeiro testemunho dado por João, ainda em gestação, que moveu-se no ventre de sua mãe, ao reconhecer reverentemente que se aproximava dele o Messias, também ainda não nascido (Lucas 1:41-45).

A Joseph Smith foi revelado que João foi levantado por Deus, “sendo cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe, Pois foi batizado quando ainda na infância e, quando tinha oito dias de idade, foi ordenado por um anjo de Deus para esse poder, a fim de derrubar o reino dos judeus e endireitar as veredas do Senhor diante da face de seu povo, com o fim de prepará-lo para a vinda do Senhor, em cujas mãos é dado todo o poder” (D&C 84:27-28).

Marcos registra uma profecia que reconhece a João como um anjo que prepara o Caminho para Israel (Marcos 1:2).

Mateus, destaca o irrepetível elogio do Messias a seu precursor: “entre os que de mulher tem nascido, não apareceu ninguém maior do que João Batista” (Mateus 11: 11).

São João Evangelista, ao mencionar o São João Batista em seu registro, menciona que ele mesmo dizia ser apenas “a voz que clama no deserto” (João 1:23).

Leí e Néfi também viram em visões a missão especialíssima do Batista, realizar o batismo de Jesus Cristo (1 Néfi 10: 7-10; 11:26-27). Que homem poderia ser considerado santo o suficiente para batizar o Cordeiro de Deus, que era Santo (2 Néfi 31:4-5)? O único mortal perante o qual o Cristo se humilhou e pediu uma bênção, a bênção de ser batizado por ele (2 Néfi 31:7).

Odiado e perseguido pelos fariseus, saduceus, e pelo clã dos herodianos, foi morto decapitado por eles, sendo o primeiro mártir cristão.

Sua morte foi motivo de dor para Jesus, que se retirou, e afastou-se de todos por um momento. Porém, o dever o chamou; multidões o seguiram, e ele os alimentou. Com o mesmo poder milagroso que fez com que Isabel e Maria concebessem João e Jesus, Ele multiplicou alimentos para as multidões. Finda a vida do Precursor, o Autor de nossa fé iniciava seu grande ministério.

Contudo, João creu Naquele que Vive e que dá a Vida Eterna. E Cristo, como diria Borges, havia de modificar o futuro de seu precursor.

Ressuscitado, João Batista foi o encarregado de vir à terra restaurar o Sacerdócio de Aarão, o sacerdócio do evangelho preparatório, aquele que batiza e ministra o Sacramento, aquele que nos ensina a aguardar a Vinda do Messias.

Foi Oliver Cowdery quem incluiu a visita do Batista imortal entre os “dias para não ser esquecidos”, e assim descreveu a ministração recebida de João: “Repentinamente, como se fora do meio da eternidade, a voz do Redentor manifestou-nos paz; ao mesmo tempo o véu abriu-se e um anjo de Deus desceu, revestido de glória, e transmitiu a esperada mensagem e as chaves do Evangelho do arrependimento. Que alegria! Que admiração! Que assombro! (...) nossos olhos viram, nossos ouvidos ouviram, como no ‘fulgor do dia’ (...) a sua voz, ainda que humilde, penetrou até o âmago e suas palavras ‘Sou vosso conservo’ desvaneceu todo temor. Escutamos! Contemplamos! Admiramos! Era a voz de um anjo da glória, era uma mensagem do Altíssimo! E, ao ouvir, rejubilamo-nos, enquanto seu amor nos aquecia a alma e éramos envoltos pela visão do Onipotente!”

Que ser tão poderoso! Que grande restaurador!

Tamanha foi a impressão causada nos corações de Oliver e de Joseph, que, novamente Oliver acrescenta: “querido irmão, pensa, pensa um pouco mais na alegria que nos encheu o coração e na surpresa com que nos curvamos (pois quem não teria dobrado os joelhos para receber tal bênção?), quando recebemos de suas mãos o Santo Sacerdócio, ao dizer ele: ‘A vós, meus conservos, em nome do Messias, eu confiro este Sacerdócio e esta autoridade que permanecerá na Terra a fim de que os Filhos de Levi possam ainda fazer, em retidão, uma oferta ao Senhor!’. Não procurarei descrever-te os sentimentos deste coração nem a majestosa beleza e glória que nos envolveram nessa ocasião; mas acreditar-me-ás quando te disser que nem a Terra nem os homens, com a eloquência do tempo, podem sequer começar a expressar-se de modo tão interessante e sublime como esse santo personagem. Não! Nem tem esta Terra poder para dar a alegria, conceder a paz ou captar a sabedoria contida em cada uma dessas frases proferidas pelo poder do Santo Espírito! (...) A certeza de que estávamos na presença de um anjo, de que ouvíamos a voz de Jesus e a verdade imaculada que emanava de um personagem puro, ditada pela vontade de Deus, é para mim indescritível e sempre considerarei essa expressão da bondade do Salvador com assombro e gratidão enquanto me for permitido viver; e nas mansões onde a perfeição habita e o pecado nunca chega, espero adorar no dia que jamais cessará.” (Nota de Rodapé em Joseph Smith - História).

Não acredito que nós outros nos sentiremos muito diferentes quando um dia o Senhor voltar para beber do fruto da Vide, com Seus santos, profetas e discípulos, entre eles João Batista, e, cingidos da verdade possamos nos rejubilar nessa santa comunhão (D&C 27).

Neste mês de junho, em meio às festas joaninas, paremos um pouco para refletir no personagem principal, João, o primo de nosso Senhor. Profeta, sacerdote, pregador, santo, precursor, restaurador, batizador. Sigamos seu exemplo de fidelidade, e de consagração. Sejamos tão empenhados como ele foi na preparação da Casa de Israel para a Vinda do Messias. Sejamos dignos das bênçãos que ele restaurou em nossos dias. E, acima de tudo, sejamos gratos a Jesus Cristo que nos amou tanto que enviou o Batista de antemão para nos guiar até que chegue o dia que não tem fim, e que possamos dizer como João “Eis aqui o Cordeiro de Deus”.



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